infraero
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
março 2009
 
Entrevista com Lia Mara
 
Atriz, jornalista, fonoaudióloga, Lia Mara é muito conhecida e querida entre os artistas baianos, que entregam suas vozes nas competentes mãos dela. No filme "Jardim das Folhas Sagradas" fez uma participação pra lá de especial. Segundo o diretor Pola Ribeiro foi uma participação das mais importantes. “Ela tem o simbólico do personagem, como ele, Lia quer mudar o mundo". Leia a entrevista com Lia Mara sobre o trabalho dela no longa.
 
Como foi feito o convite para sua participação no filme?

Pola quando ligou disse que eu ia ler um texto de 2 ou 3 minutos, uma coisa pequena, uma coisa "rapidinha".

Mas aí começou um "mergulhinho" na coisa.
Eu precisava saber o que levou aquela senhora a dizer o texto e em que contexto. Pra quê e pra quem. Qual a conseqüência. Quais os antecedentes. Um filho sumir, voltar e ela receber bem. Mãe de Santo, ao meu ver tem essa sabedoria, a sabedoria do perdão. Dar acolhimento. Ela sabe que existe maré vazante e maré enchente. Ela sabe que filho vem e vai e ela está de braços abertos para receber passantes e ficantes.


Pola e Godi

Como foi essa aproximação como personagem mesmo, como alguém que faz  parte do candomblé?

É um momento no mundo em que a obediência está sendo questionada. A  disciplina  é confundida com  intolerância . Eu acho que disciplina é uma forma  ótima de se ter liberdade de convivência. Existem parâmetros numa  casa de santo. A hierarquia não é baseada na força, mas na crença.

 

E por onde começou o processo de preparação para fazer a voz da mãe de santo?

A primeira coisa que vi foi que não era uma narração "rapidinha". Eu tinha que assumir um personagem na medida em que assumiria a voz. Tive que envelhecer a voz. E não é fácil fazer isso. Tive que sentir emoção, o ritmo da fala a inflexão. Como iria dizer o texto em Iorubá, procurei um professor de Iorubá para aprender a pulsação do texto. Contei com a ajuda de Mãe Estela, que conversou uma tarde inteira comigo sobre a propriedade - adequação dos sons e palavras do texto. Eu gravei no mesmo local onde a cena do filme foi feita depois. Embaixo de uma árvore, debaixo de chuvarada. Pensei qual era o significado daquela árvore em nossa ancestralidade. Falei com o Márcio Meirelles, que fez a preparação do elenco do filme. Na horinha de gravar perguntei a Márcio - qual a idade de voz e emoção pra eu dizer "você sumiu". "Ele disse, com aquele jeito de menino, pois é, você mesmo some e quando aparece mãe Estela não fica perguntando, porque você sumiu". Ele me deu um toque e consegui fazer a cena - adequando a emoção e imagem vocal - a partir daquele toque. Síntese - acolhimento.

Além das aulas e da conversa com mãe Estela, teve também o figurino de  mãe de santo pra fazer a cena.

A segunda pele de um personagem é a roupa. Fui vestida porque para  fazer a voz tem que construir o personagem, estar inserida dentro do momento de vida dele. Uma vez  fui gravar  numa emissora e me deram um paletó para fazer personagem surfista. Me  sentia estranha, dividida. Em cima de um jeito e embaixo de outro. Me  senti mal como se estivesse mascarada. Eu não queria imitar o surfista, o propósito era assumir o surfista.

Um outro episódio que aconteceu comigo. Uma  mãe de santo perdeu a voz e me procurou.  Quando ela entrou estava com a roupa de mãe de santo,  enorme. Eu não  conseguia sentir a respiração dela com aquela roupa toda. Precisava tratar  a pessoa, não a mãe de santo. Pedi pra ela vestir roupa de passeio e  não de ritual, e consegui encontrar a razão da perda de voz. Depois  que encontrei a voz orgânica, ela recuperou a voz  como pessoa e voltou a se vestir com a roupa do ritual. Foi muito bonito porque ela recebeu o santo e transitou pela casa com a voz recuperada.  A  liberdade  de expressão preservadas a partir da essência.

Ao meu ver o ser humano tem sub-personalidades. A vida é um equilíbrio  delas. Fui procurar meu lado mágico, de mistério, e me vesti como  achava que esse lado de mistério deveria ser . Me vesti baseada nos rituais que tinha assistido. A gente  tem distanciamento artístico mas tem que assumir uma verdade humana. Prefiro acompanhar mente, corpo e fala . O comando é central. A fala é a conseqüência . O maior órgão da fala é o cérebro, bem administrado. Quando você consegue equilibrar a zorra toda é a glória.

E é bom ter a parceria de um diretor como Póla, que além de competente é amoroso. Dá a maior força e doçura ao dirigir um filme. No caso, O Jardim das Folhas Sagradas.


Folhas Sagradas / Ascom
Studio Brasil 2008 - Salvador - Bahia - Brasil